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O que é Cosplay? | O Guia Definitivo sobre o Mundo Cosplay

Cosplay é a arte de se transformar em um personagem utilizando de maquiagem, interpretação, vestuário e demais técnicas exigidas pelo alterego do artista ou do personagem que está interpretando.

O que é Cosplay? | Cosplay Tutorial

A Cosplace é um portal ideal para os fãs de cosplay e cosplayers. Nos últimos anos a cultura pop cosplay se espalhou e se difundiu no mundo ocidental e se encontra em plena expansão no Brasil, ao contrário do que muitos pensam, cosplay não está somente relacionado a personagens de animes e quadrinhos, mas também filmes, séries, bandas, artistas e até mesmo uma “mescla” de dois gêneros ou obras diferentes (também conhecido como mashup cosplay). Diante de um universo tão novo e ao mesmo tempo tão amplo muitas pessoas costumam ficar perdidas.

Por isso começamos o GUIA DEFINITIVO SOBRE O MUNDO COSPLAY, uma série de artigos e colunas reunindo conceitos científicos e antropológicos para explicarmos melhor sobre cosplays e os assuntos relacionados a sua estrutura.

Para darmos um start nas nossas séries de colunas devemos responder uma pergunta muito básica: afinal, o que é cosplay?

O que é cosplay? Cosplay o que é isso?

Passando rapidamente na história do surgimento do cosplay: as primeiras manifestações consideráveis do movimento começaram nos anos 70 e 80 nos Estados Unidos e no Japão. Nos anos 90, com a facilidade digital para o acesso as obras que inspiram a atividade, houve uma maior difusão das mesmas pelo mundo.

O que é cosplay em português / Cosplay blogs

No início do milênio 2000 foi quando os restaurantes em Akihabara (distrito de Tóquio) começaram a aderir os cosplayers para além da diversão, mas também ao uso profissional para trabalhos em seus restaurantes, fato que até foi registrado em documentários. Por ser uma prática crescente é difícil marcarmos um “ano oficial” como o nascimento dos cosplayers.

Akihabara (Distrito de Tóquio – Japão)

Fantasias cosplay – Cosplay comprar com o seu real interesse

Em suma, cosplayer é uma tribo urbana onde é praticado o hobby cosplay que consiste em fantasiar-se e interpretar um determinado personagem de game, quadrinhos, mangás, animes, filmes, séries e etc… ou até mesmo artistas ou figuras históricas.

Devemos lembrar que podemos marcar a década de 80 como o início dessa prática, todavia se considerarmos o sentido etimológico da palavra (costume play, do japonês コスプレ – kosupure; podendo ser traduzido para o português como “brincar de fantasiar-se”) nos remetemos há alguns séculos mais para trás com festas a fantasias.

Já foram encontrados registros de 9000 a.C. de quando o homem fantasiava-se de seus heróis e/ou deuses, portanto o cosplay é uma manifestação artística da sociedade contemporânea como fixação de uma atividade de uma subcultura, porém a prática de fantasiar-se (e até mesmo interpretar) personagens já é milenar. Fazer cosplay nos leva a algo além de meramente colocar a roupa de um personagem ou figura histórica, mas também é uma manifestação artística.

É difícil falarmos sobre cosplay sem antes darmos uma breve passada em dois conceitos importantes: arte e tribo urbana.

A palavra arte é uma derivação do latim “ars” ou “artis”, correspondente ao verbete grego “tékne”. A arte no sentido amplo significa o meio de fazer ou produzir alguma coisa ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens. Por regra temos como base as seis grandes artes: arquitetura, escultura, pintura, escrita, música e dança; sendo o cinema considerado a sétima arte moderna.

Cosplay Costumes / Easy Cosplay

Claro que devemos ter em mente que o conceito de arte não é algo estático e tácito, podendo ser variável de diferentes sociedades e até mesmo indivíduos, além de seus diferentes momentos históricos, escolas, estilos, técnicas e etc. Para exemplificar o artigo e não entrarmos em uma grande linha de discussão das escolas artísticas tomaremos como base os conceitos de Ellen Dissanayake em What is art for?, uma das grandes obras da história da arte, onde pode-se definir arte aquilo que se enquadre em um ou vários desses aspectos:

– a manifestação de alguma habilidade especial,
– a criação artificial de algo pelo homem;
– o desencadeamento de algum tipo de resposta no ser humano, como o senso de prazer ou beleza;
– a apresentação de algum tipo de ordem, padrão ou harmonia;
– a transmissão de um senso de novidade e ineditismo;
– a expressão da realidade interior do criador;
– a comunicação de algo sob a forma de uma linguagem especial;
– a noção de valor e importância;
– a excitação da imaginação e a fantasia;
– a indução ou comunicação de uma experiência-pico;
– coisas que possuam reconhecidamente um sentido;
– coisas que deem uma resposta a um dado problema.

Como o cosplay se adéqua a mais de um desses aspectos como “a manifestação de alguma habilidade especial”, “a comunicação de algo sob a forma de uma linguagem especial” e “a excitação da imaginação e a fantasia”, conseguimos entender que o desenvolvimento e criação de um cosplay não está somente ligado ao hobby ou um passatempo a toa como pode soar no senso comum, o cosplayer é acima de tudo um artista que junta diferente elementos na sua composição final.

O que não torna difícil entender como o mercado se encontra interessado pela presença desses artistas, pois, além de talentosos, os cosplayers também são poderosos entertainers e se tornam facilmente as atrações principais de convenções e feiras.

Depois de compreendermos que cosplayers são artistas e entertainers precisamos entender um pouco melhor sobre tribos urbanas. Tribos urbanas, também chamada de subsociedade por alguns escritores, dentro dos conceitos de Michel Maffesoli: são grupos de pessoas que partilham de conformidade de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir. Esses grupos não têm projetos ou objetivos específicos a não ser pelo partilhamento. Reforçam “um sentimento de pertença” e favorecem “uma nova relação com o ambiente social”. Ou seja, as tribos urbanas surgem como um instrumento social de identificação do individual com o coletivo.

Tribos urbanas são grupos de pessoas que partilham de conformidade de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir

Porém poderia um cosplay ser de um personagem “original”? Ou seja, personagem criado pelo próprio cosplayer? Por via de regra, grandes concursos utilizam como base na definição de cosplay a fantasia de algum personagem de alguma obra publicada, porém cabe a ressalva que regras de competições não definem comportamentos sociais e tão quão menos vestes de tribos urbanas!

Aliás será difícil para a banca de jurados pontuar a fidelidade de um personagem original, as regras são moldadas de acordo com a sociedade e não o contrário. Logicamente em uma competição temática de cosplays de ficção científica serão aceitos os cosplays de ficção científica, o que não torna os cosplays de games e animes “menos” cosplays, mas na verdade o tornam não aptos para participar DAQUELE tipo de concurso.

As regras tem o uso muito prático para modelar comportamentos, porém devemos lembrar que suas principais funções estão ligadas para o funcionamento do evento e possibilidade da banca jurada definir as pontuações pré-estabelecidas. Pela própria definição etimológica do conceito e de sua construção social conseguimos perceber que não somente é possível ao cosplayer que ele trabalhe em cima de um personagem já criado, mas também mescle a personalidade de seu personagem a seu próprio estilo ou crie seu próprio personagem!

Existem diversas subtribos dos cosplayers que aperfeiçoam a personalidade de seus personagens como os furrys ou até mesmo os mashup cosplays (os quais trataremos futuramente sobre cada subtribo e estilos nessa série de artigos) que mesclam personalidades de diferentes personagens, logo, um cosplayer pode criar um cosplay totalmente original ou inserir seus aspectos visuais nele; são manifestações artísticas diferentes entre si e complementares em sua totalidade. Porém, pelas regras dos grandes concursos, essa categoria artística está fora dos requisitos necessários para serem julgados e premiados.

Nota sobre a reportagem da Tv UOL: “Problemas de Identidade Cosplay”

Como colunista da Cosplace e psicólogo formado tenho que escrever esta nota sobre a reportagem feita pelo reporter da UOL, Rodrigo Bertolotto, para a Tv UOL (21/08/2015) intitulada: “Cosplay: adolescente que se fantasia demais tem problema de identidade?”.

É importante lembrar que na psicologia há várias abordagens diferentes, dependendo dos autores preferidos do profissional (sim, isso não é algo só da faculdade, realmente faz parte da forma com que a pessoa exerce sua profissão).

Vamos levantar o que, NA TEORIA, pode embasar o pensamento das especialistas descritas no vídeo: Pelo menos na teoria Junguiana, que é minha especialidade, há uma ideia a qual chamamos de “identificação com a Persona”, porém para explicar isso primeiro preciso explicar o conceito de Persona por si. Esta palavra se origina das máscaras que os gregos antigos usavam para suas representações teatrais, Jung evoca essa ideia para nos dizer que todo ser humano usa máscaras no seu dia a dia, por que em cada situação diferente usamos um comportamento diferente, por exemplo “soldado”, “trabalhador”, “aluno” e etc.

A Persona é um fenômeno essencial para o funcionamento da psique humana, por que protege nosso Ego (núcleo da personalidade consciente) e nos auxilia na adaptação com o meio, porém existe a ideia de identificação com a Persona, que é em si um fenômeno patológico (como uma doença) de quando nós apenas conseguimos viver em cima de uma dessas Personas, podemos ver isso quando alguém possui uma profissão e só consegue agir da forma que essa profissão age, como um coronel que trata a sua família como se estivesse no quartel.

Quanto a isso, o que podemos dizer sobre cosplay? Sim, ele funciona como uma Persona, e sim, exatamente por isso ele corre o risco da identificação com a Persona, porém corremos esse mesmo risco por ter uma profissão, por viver em um grupo especifico em sociedade, ou por vivermos em uma família, pois afinal “filho”, “pai” e “mãe” são Personas também.

Sintetizando: Temos o risco de nos identificar com qualquer Persona em qualquer momento, fazer cosplay não aumenta o risco disso acontecer, no máximo da mais uma opção para que isto aconteça, e o mais importante é: Não é o cosplay que faz a patologia, mas sim a patologia que se usa do cosplay para tomar forma, ou seja, se por acaso ocorrer de ter esta identificação exagerada com um personagem, a pessoa provavelmente já tinha essa tendência patológica antes mesmo de conhecer o personagem.

Para finalizar, julgar um grupo inteiro, como a forma que as profissionais julgaram cosplays no vídeo, beira ao anti-ético, pois isso tira a individualidade de cada um em contrapartida da imagem social sobre o grupo (que no caso estava deveras exagerada).

Ou seja: Cosplay é a ARTE de se transformar em um personagem utilizando de maquiagem, interpretação, vestuário e demais técnicas exigidas pelo alter ego do artista ou do personagem que está interpretando. Cosplayers são entertainers que podem fazer uso de sua arte cosplay com finalidade de hobby ou profissional, porém acima de tudo cosplayers são artistas completos da sociedade contemporânea.

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