“CosPobre”, “CosPuta”, “CosPreto” e “O mundo tá chato”. Chega de preconceito e discriminação no mundo cosplay!

Nos últimos anos a inclusão digital permitiu que as pessoas pudessem se expressar com maior facilidade através da internet em lugares como blogs e redes sociais, o que inclusive é um dos motivos da arte cosplay ser tão facilmente divulgada e estar em um constante crescimento, um assunto que sempre está em alta é a forma como as pessoas discutem sobre discriminações e desrespeitos através de diversos tipos de publicações ofensivas e ditas “piadas” que agridem de forma direta principalmente grupos específicos em diversos âmbitos como em forma de preconceito.

Em um texto do livro Preconceito, Individuo E Cultura, o autor José Leon Crochik fala sobre uma complicação inerente ao conceito de preconceito:

Há diversas complicações inerentes ao conceito de preconceito. Uma delas se refere a que o indivíduo preconceituoso tende a desenvolver preconceitos em relação a diversos objetos – ao judeu, ao negro, ao homossexual etc. -, o que já indica uma forma de atuação desenvolvida por ele de certa maneira independente da característica dos objetos alvos do preconceito, que são distintos entre si. Isto mostra que o preconceito diz mais respeito às necessidades do preconceituoso do que as características de seus objetos, pois cada um desses é imaginariamente dotado de aspectos distindos daquilo que eles são. – José Leon Crochik; Preconceito, Individuo E Cultura; 2006

Com isso conseguimos concluir que as pessoas que “dão a sua opinião” preconceituosa dizendo coisas do tipo “esse cosplay está parecendo mais um CosPuta” ou “Você acabou dando uma economizada no seu cosplay, parece um CosPobre” de forma alguma é um problema com a pessoa que faz o cosplay em si, mas sim da pessoa que julga a forma como as pessoas fazem os seus cosplays.

Um exemplo fora do mundo cosplay de como as pessoas reagem a essas opiniões é a marca Pepsi que lançou um comercial marcando o retorno de um de seus produtos bem famosos aqui no Brasil, a Pepsi Twist, onde “os limões”, personagens da marca, discutem sobre como “O mundo tá chato” e na conversa um dos limões alega que a nova latinha do produto “ficou animal” e o outro responde dizendo que “algum animal pode se ofender com isso”, após isso um deles diz a frase: “Agora imagina se a gente fosse ligar pro que falam da gente” e com isso eles começam a usar várias frases de exemplo pra justificar o que eles disseram. Confiram o vídeo para entender melhor:

Com este exemplo podemos entender a magnitude do enorme problema social que enfrentamos atualmente quando o assunto é opinião e preconceito e infelizmente no mundo cosplay isso não é muito diferente pois assim como a Lady Lemon nos disse em uma de suas entrevistas para o CosPin: “É bom lembrar que brigas acontecem em todo lugar,  pelas mais diferentes razões. Com os cosplayers não é diferente.”.

Termos como CosPobre, CosPuta ou até mesmo CosPreto são exemplos de formas que as pessoas utilizam para denominar o que seria um “tipo de cosplay”, porém esses termos acabam sendo utilizados de forma extremamente ofensiva e até mesmo preconceituosa dentro da comunidade, um exemplo disso é o Virgula, um canal de notícias não relacionado a cosplay, que em uma reportagem feita em Dezembro do ano passado, denominou alguns cosplays participantes da CCXP – Comic Con Experience- como pessoas que utilizavam uma “fantasia classe média”.

O termo CosPobre em si nem é um problema tão grande assim, pois vários cosplayers utilizam a nomenclatura CosPobre pra definir “cosplays de armário” ou improvisações propositalmente cômicas como a dos Tailandeses do Lowcostcosplay ou até mesmo para se autodefinir como a Jamille a vencedora do nosso primeiro Hall da Fama, mas o grande problema está na falta de respeito que as pessoas tem em simplesmente “dar a sua opinião” de forma desrespeitosa e ofensiva sobre a forma como as pessoas fazem ou deixam de fazer os seus cosplays.

Jamille vencedora do primeiro Hall da Fama Cosplace com sua premiação | Cosplay de Mavis - CosPobre -
Jamille vencedora do primeiro Hall da Fama Cosplace com sua premiação | Cosplay de Mavis – CosPobre –

É incrível como esse desrespeito é tão grande, de forma que até mesmo cosplayers famosos como a Jessica Nigri, uma cosplayer que infelizmente é quase sempre taxada como uma “CosPuta” pelos seus cosplays mais sensuais, tem que sempre reafirmar coisas do tipo: ” […] cosplay não é todo sobre peitos e bundas. É sobre diversão, magia criativa com seus amigos. É sobre passar semanas em algo para vestir por um dia. É sobre o sentimento bom sobre si mesmo em um traje para compartilhar com o mundo. […]”. Isso sem falar em uma situação constrangedora que ela teve que passar com um grupo de garotos de cosplays gender bender de personagens femininas do game League of Legends que foram vencedores de um concurso em que ela foi jurada e que não receberam a esperada atenção do público pela sua vitória.

Self do grupo de garotos de cosplays gender bender de personagens femininas do game League of Legends e Jessica Nigri
Self do grupo de garotos de cosplays gender bender de personagens femininas do game League of Legends e Jessica Nigri

Mas com tantos problemas uma coisa que nos reconforta é a hashtag #29daysofblackcosplay que está em alta nas redes sociais durante o Black History Month, celebrado no mês de Fevereiro (“Mês da História Negra” nos EUA e Canadá, no Brasil em 20 de Novembro como Dia da Consciência Negra), nela podemos ver que as pessoas não se deixam silenciar e querem mostrar que podem e continuarão fazendo seus cosplays como bem entenderem e que isso não faz com que eles sejam melhores ou piores do que os outros.

Cosplay de Jade foto participante da #29daysofblackcosplay
Cosplay de Jade foto participante da #29daysofblackcosplay

Não é correto tolerar todo e qualquer tipo de discriminação, desrespeito, preconceito e principalmente ofensas com qualquer pessoa por qualquer motivo, pois o mais importante para vivermos em sociedade, até mesmo no mundo cosplay é o respeito acima de qualquer coisa, então denominar um cosplay como CosPobre, CosPuta ou CosPreto é algo que deve sim ser recriminado.

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